A Lei do Bem é o incentivo fiscal à inovação que eu mais vejo empresa deixar na mesa. E quase sempre pelo mesmo motivo: ninguém perguntou ao contador qual é o regime tributário antes de começar o projeto. Lembrei disso em uma reunião de proposta, quando parei a conversa no meio para falar de imposto.
Do outro lado estava uma organização com um cadastro gigante de produtos para classificar. Hoje isso é feito na mão, por especialistas, e come horas do time. Eles queriam usar inteligência artificial para resolver e iam bancar tudo com dinheiro da própria empresa.
Lei do Bem pede lucro real
Eu disse para eles: “A gente vê que isso é muito característica de projeto de inovação dentro das empresas. Eu não posso deixar de levantar um insight aqui para vocês. Eu estou até gravando, depois eu posso compartilhar com vocês.”
Emendei: “Se a empresa for do lucro real, tem uma tal de Lei do Bem. Esse investimento que vocês estão fazendo, em projetos de inovação como esse que a gente tem falado, a empresa consegue em desconto de imposto. Eles abatem no imposto, com a Lei do Bem, porque vocês estão investindo em inovação.”
A primeira condição está ali na frase: lucro real. Empresa no Simples ou no lucro presumido não usa esse benefício, e muita gente desliga nessa hora achando que não é com ela. Só que para saber basta uma ligação para o contador. A maioria dos donos de negócio que eu encontro nunca fez essa pergunta.
Fechei aquela parte assim: “Não posso deixar de gerar esse insight aí para vocês levarem para dentro. E é firme essa lei, ela é bem interessante.”
Depois ofereci o que a gente tinha de concreto: “Nós temos o network que sabe esse caminho. Conversem aí, se vocês quiserem evoluir, eu faço essa conexão para gente entender e ver.”
O perfil que se encaixa
O que me fez parar a reunião foi o jeito como o projeto estava sendo pago. Falei: “É o perfil de vocês: vocês estão abrindo aqui com o investimento do bolso, literalmente da empresa. Imagina que esse perfil de vocês, inclusive, vocês podem ter incentivos fiscais. Eu acho que isso é bem relevante para o negócio.”
E o projeto tinha cara de inovação de verdade. Expliquei por quê: “É oportunidade de inovação, porque hoje é algo que leva tempo de vocês. É um trabalho bem minucioso, porém necessário, senão vocês não fariam, e que a gente pode otimizar com inteligência artificial.”
Isso pesa porque a lei olha para pesquisa e risco técnico. Comprar uma ferramenta pronta e instalar dificilmente entra nessa conta. E naquele caso não tinha nada pronto.
Avisei: “Pessoal, não é algo pronto, a gente vai desenvolver juntos. Essa é uma solução que eu não posso virar na nossa prateleira e falar: ‘Ah, deixa eu pegar aqui uma automação de classificação de produtos, vou instalar para o cliente’.”
Completei: “A gente vai se aprofundar em pesquisa, em protótipo. Aí vocês vão validar. Aí a gente vai se aprofundar em um caminho viável e aí a gente vai desenvolver.”
Como o projeto foi pensado
Conto como a solução foi desenhada porque é aí que aparece a pesquisa que a lei quer ver.
Eu expliquei: “O mercado defende muito plataformas agênticas. O que é isso? É um agente delegando para o outro. Vocês são um time. Acredito que um faz uma coisa, o outro faz outra, o outro revisa o que o outro fez, o outro encaminha tal coisa. Um workflow que a gente chama.”
E dei um exemplo: “A gente pode usar um modelo de linguagem, mas aí se ele não conseguir classificar, a gente pode chamar outro em segundo lugar. Aí se o outro ainda não conseguiu classificar, a gente chama um terceiro. E isso vai fazer com que a gente aumente o nível de performance.”
É a mesma lógica de agentes passando trabalho um para o outro que eu discuto quando falo do que automatizar primeiro com agentes de IA. Aqui tinha um cuidado a mais.
O cuidado era o erro. Eu disse: “Essa é uma informação que, se errada, causa prejuízo até. Então a gente cria um agente que fica revisando se aquilo faz sentido e apontando possíveis inconsistências, uma necessidade de revalidação de um humano. Ela fala: ‘Olha, eu não consegui ter certeza’. Você olha aqui e finaliza.”
E alinhei a expectativa: “Eu não acho que vai eliminar um humano dessa esteira. Eu acho que lá no final vai ter alguém dando um check e uma revisão até para garantir a eficiência da inteligência artificial. Daqui um tempo, quando ela fizer isso tantas mil vezes corretamente, aí dá para confiar.”
Na mesma conversa, emendei: “Imagina que ela chegue ao máximo: ela é uma funcionária barata, que pode trabalhar fazendo algo tão relevante para a operação, e vocês, como especialistas, possam estar fazendo outras coisas que não ficar horas e horas classificando uma planilha.”
A conta entre contratar gente e colocar máquina eu abri em contratação vs. automação com IA, e ela muda bastante quando parte do investimento volta em imposto.
A pergunta para o contador
Voltando ao dinheiro, que foi o que me fez parar a reunião. Fechei ligando as duas pontas: “Vocês colocam mais produto na prateleira de vocês e vendem mais dentro dos clientes que vocês já atendem. Então esse investimento acaba retornando quantas vezes mais depois em receita gerada.”
E completei: “Vocês estão buscando sempre gerar mais valor dentro dos clientes, poder fazer algo melhor, poder fazer algo mais rápido. E a consequência é gerar receita também, e a empresa tem que ser beneficiada por está fazendo isso.”
Então, se você vai tocar um projeto de inovação com tecnologia, faz uma coisa antes de assinar qualquer proposta. Liga para o contador e pergunta em que regime a empresa está. Se for lucro real, pede para ele olhar a Lei do Bem junto com o escopo, enquanto ainda dá tempo de registrar a pesquisa do jeito certo.
Se precisar de alguém do lado técnico nessa conversa, é nesse tipo de projeto que a gente entra, da pesquisa ao protótipo.
Você já sabe em que regime a sua empresa está?